Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente Cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente Cultural. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de junho de 2008

A cidade é do Salvador mas o inferno é que impera por aqui







Olá pessoal, tem dias, como hoje, que acordo pensando em buscar boas e interessantes notícias para postar aqui em nosso Blog. Mas está complicado. Vejam, tem um ditado que diz: “de gente bem intencionada o inferno está cheio”, acompanhem o que foi veiculado no site da Prefeitura do Salvador.

Área do Abaeté é transformada em zona de proteção ambiental 06/06/2008 19:57
Uma área de 1,2 milhão de metros quadrados que circunda o Parque do Abaeté, em Itapuã, está sendo desapropriada pela Prefeitura de Salvador para transformar-se em Zona de Proteção Ambiental. A Prefeitura publicou, no dia 28 de maio, no Diário Oficial do Município, o decreto que regulamenta a Zona de Proteção Ambiental - ZPAM do Parque das Lagoas e Dunas do Abaeté, criada pelo Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), neste ano, por lei municipal.
O objetivo do decreto é preservar as áreas inseridas no limite do parque, que apresenta um grande resquício de dunas. De acordo com a secretária municipal de Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente, Kátia Carmelo, a Prefeitura está desapropriando as áreas inseridas nos limites do parque para implementar o Parque das Lagoas e Dunas do Abaeté.

Incentivo à doação

Para incentivar a doação destas áreas à Prefeitura, a administração municipal oferece como incentivo aos proprietários do local, inseridos na poligonal da ZPAM, a utilização do instrumento de Transferência do Direito de Construir.

Por este instrumento de política urbana, que transfere a titularidade das propriedades para o município, os proprietários poderão receber uma escritura de terreno em outro local. Além disso, o decreto regulamenta o uso sustentável da área, estabelecendo normas de ocupação, visando estruturar o funcionamento do novo parque, como a construção de escolas, oficinas, lanchonete, guaritas, dentre outras edificações.

Uma das idéias em estudo, segundo a secretária da Seplam, é a incorporação do ZPAM ao Parque do Abaeté, que atualmente é administrado pela Conder, de forma a evitar a ocupação informal. "O objetivo é criar uma nova área de preservação", ressalta a secretária. Até lá, diz ela, há todo um processo administrativo a ser levado adiante por meio da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz). Somente quando todo o processo for concluído, informou, é que a Prefeitura definirá a destinação da área.

(http://www.salvador.ba.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=9921&Itemid=42)


Diante disto fico pensando no número de APAs que já criamos e incluo nestas a própria APA Lagoa e Dunas do Abaeté; sem contar nas Leis Ambientais, muito admiradas e pouco aplicadas e pego-me a pensar sobre as informações acima. Onde vejo a indubitável e ótima intenção, mas a descrença impera.

Reluto em aceitar, mas acho que o inferno é aqui!

Agora que o “religioso” já foi discutido, que venha o “profano”, porque na terra do berimbau quem toca com mais de uma corda é gênio!

“Fogo eterno pra afugentar

O inferno pra outro lugar


Fogo eterno pra consumir


O inferno fora daqui”
(Palco – Gilberto Gil)


Mas voltando ao “religioso”...
"Primeira missa, primeiro índio abatido também”

E ao “profano” também...
“Que Deus entendeu de dar toda magia


Pro bem, pro mal, primeiro chão na Bahia


Primeiro carnaval, primeiro pelourinho também”
(Toda Menina Baiana – Gilberto Gil)

(Acompanhem: http://www.youtube.com/watch?v=dY4RTonbUCw)


Alvaro Meirelles
Biólogo (CRBio 59.479/05-D) e Gestor Ambiental
http://www.grupomeirelles.com

domingo, 11 de maio de 2008

Mercado Imobiliário Baiano

Parte 1
Mansão Wildberger: crônica de uma demolição

Alejandra Hernández Muñoz e Luiz Alberto Ribeiro Freire

Quinta, 8 de fevereiro de 2007, 08h17

Casarão histórico no Largo da Vitória, em Salvador, foi demolido quase às escondidas numa tarde de domingo para dar lugar a um edifício de 35 andares. A demolição criminosa que a construtora Liwil empreendeu no dia 28 de janeiro comprova o processo de demolição do patrimônio cultural baiano inaugurado com a demolição - derrubada da antiga Sé ocorrida em 1933. Na época, três ingredientes contribuíram para a derrocada da Sé: a justificativa do "progresso", a ganância das autoridades eclesiásticas e a ausência de legislação sobre o patrimônio.

Esta última foi suprida algum tempo depois com a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN, atual Instituto IPHAN). Deste marco em diante, outros ingredientes, tão ou mais nocivos, associaram-se na destruição das referências de nosso passado mais antigo e recente, como o descumprimento das leis específicas, o descaso, a prepotência econômica, a ausência de autoridades, a burocracia intencional, a corrupção e a defesa da "modernidade".
Em 2005, o IPHAN tombou provisoriamente a Igreja de Nossa Senhora da Vitória e o seu entorno, compreendendo uma poligonal que abrange ambos os lados do Largo da Vitória, partindo do antigo Hotel Colonial (atual Aliança Francesa), passando pela clínica médica (CATO), na esquina, e por todas as edificações vizinhas até a Mansão Wildberger, inclusive, e, no lado oposto do Largo, por todos os edifícios desde a residência universitária da UFBA até a esquina com a avenida Sete de Setembro. Esse tombamento, segundo a Portaria nº10, de 10/09/1986, implica que qualquer alteração, seja por demolição ou acréscimo de qualquer elemento (desde um cartaz publicitário até um edifício), não pode ser feita sem a análise e a aprovação do IPHAN. Via de regra, os tombamentos provisórios têm evoluído para definitivos.

Portanto, o caso da Mansão Wildberger repete, em terras baianas, a estratégia criminosa adotada no caso da Mansão Matarazzo em São Paulo. A consciência da ilegalidade é evidenciada pelo dia, horário e condições escolhidas para a demolição: em uma tarde de domingo, destroçaram a casa com parte do seu recheio, aquele que não foi retirado na madrugada anterior. O ruído das máquinas chamou a atenção da vizinhança, levando-a a denunciar o barulho excessivo à Superintendência de Uso e Controle da Ocupação do Solo do Município (SUCOM); alguns vizinhos apareceram para pilharem, enquanto outros lamentavam.

Por parte da sociedade, há dois comportamentos que comprometem a luta pela preservação do patrimônio: por um lado, a prática do roubo de antiguidades, da privatização dos bens públicos, e, por outro lado, a postura passiva das pessoas, na maioria das vezes indiferentes, ou a lamentação sem conseqüências.

A história do Largo da Vitória e da Mansão Wildberger
A primeira Igreja de Nossa Senhora da Vitória foi construída ainda no século XVI, com sua fachada principal para o poente. O modesto edifício original, em barro e palha, como a maioria das primeiras capelas baianas, foi substituído por outro de alvenaria (possivelmente no século XVII ou XVIII), reorientado "para o lado da terra", com seu acesso principal desde o antigo Caminho do Conselho (atual avenida Sete de Setembro).

Em 1915, mantendo-se a caixa dos antigos muros, a Igreja foi modernizada com a atual fachada eclética, enquanto o Largo da Vitória recebia iluminação, trilhos de bondes e arborização. Ou seja, o valor histórico e artístico da Igreja é inquestionável, não apenas pela sua relevância arquitetônica como pela sua decoração interior em talha, obra-prima do grande entalhador baiano, o Capitão Cipriano Francisco de Souza, realizada no século XIX, assim como a pintura de seu forro.

Até os anos 1930, no terreno do fundo do Largo, atrás da Igreja, havia um casarão do século XIX, com o Hotel Bom Sejour, que alojava principalmente suíços e alemães. Em 1937, o Hotel deu lugar à Mansão Wildberger, inspirada na arquitetura medieval alemã, com exteriores evocando um jardim inglês. Com a gradativa verticalização do Corredor da Vitória, desde os anos 1960, a área do Largo começou a ser rodeada de edifícios altos. Porém, o entorno da Igreja, mesmo com a construção dos arranha-céus, que não superam os 10 andares, conseguiu manter uma relação de escala harmônica, já que, volumetricamente, representa o dobro da altura do volume da igreja, enquanto o afastamento deles do monumento não comprometem a sua legibilidade.

Historicamente, portanto, a Igreja, vista desde o Largo, tem sido percebida contra o céu, com o fundo limpo, sem qualquer elemento que interfira em sua leitura. Assim, desde a ladeira da Barra, apesar de todas as transformações das vizinhanças, há mais de 450 anos que toda a área do fundo do templo se conserva praticamente com as mesmas características: edificações baixas e vegetação densa. E, precisamente, a Mansão Wildberger passou a ser o único espaço que manteve seu ar discreto naquela paisagem, permitindo o destaque da Igreja, principal monumento do lugar. Ou seja, a conservação de toda a atual relação volumétrica, tanto desde o Largo como da ladeira da Barra, revela-se de fundamental importância para a adequada legibilidade monumental da Igreja.

O principal problema, portanto, que envolve o projeto Mansão Wildberger (a destruição da casa para a construção de um arranha-céu de 35 andares), está na relação volumétrica desta monstruosidade com a Igreja, com os edifícios do entorno e com a paisagem verdejante da encosta sobre a Baía de Todos os Santos.

A relevância do entorno da Igreja da Vitória
As primeiras políticas de conservação de inícios do século XX referiam-se apenas ao elemento construído, sem considerar o contexto das edificações e monumentos. Essa foi a linha de atuação dos primeiros tombamentos do SPHAN (atual IPHAN), que estabeleciam graus de proteção de edifícios isolados, no início das campanhas de preservação no Brasil. Porém, com o aprofundamento das discussões e após resultados díspares, percebeu-se que tão importante quanto o próprio objeto era o entorno do bem patrimonial, isto é, a sua ambiência. A partir da Carta de Veneza, de 1964, então, a proteção começou a ser estendida ao entorno do edifício tombado e, também, a adotar-se como critério de valor a presença de uma edificação na paisagem, a partir do conceito de tecido urbano como elemento monumentalizável. Ou seja, tratava-se de reivindicar o aspecto constitutivo de um ambiente determinado por um edifício, mesmo que esse não fosse relevante desde o ponto de vista histórico ou artístico. Esse é o caso da Mansão Wildberger, como parte integrante do entorno da Igreja da Vitória.

Daí a importância do tombamento da Igreja e, sobretudo, a preocupação existente diante da iminente torre que se pretende construir a poucos metros de seus muros. Não é uma discussão, apenas, do direito à propriedade privada, mas do direito que teria uma reduzida parcela da sociedade de destruir um patrimônio público que não lhe pertence - neste caso, a legibilidade monumental da Igreja da Vitória e, pior, o impacto de tal torre naquele lugar para a feição da cidade.

(Os autores são Professores de História da Arte da Escola de Belas Artes da UFBA. Luiz Alberto Ribeiro Freire é museólogo, doutor em História da Arte, vencedor do Prêmio Clarival Prado Valladares de 2006, publicou recentemente "A Talha Neoclássica na Bahia". Alejandra Hernández Muñoz é arquiteta e doutoranda em Urbanismo sobre o tema dos Espaços Públicos de Salvador. Disponível em: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1396954-EI6581,00.html)


(Obrigado ao quase Técnico em Meio Ambiente Gilson Leobino pelas informações e sugestão de pauta)

Alvaro Meirelles

Biólogo (CRBio 59.479/05-D) e Gestor Ambiental

http://www.grupomeirelles.com/

http://grupomeirelles.blogspot.com/